A Igreja evangélica e a crise hidríca de São Paulo

por Johnny Bernardo*

Há indícios mais do que suficientes de que o Estado de São Paulo pode passar por uma profunda conturbação social por conta da crise hidríca que assola o Estado desde o começo de 2014. A água é um bem finito e cuja reposição não depende apenas de investimentos em infraestrutura, embora os governos tenham parte de culpa por não cuidarem de forma correta dos grandes afluentes, das nascentes e mananciais. Neste momento, no entanto, a sociedade civil deve se ocupar na busca por soluções que amenizem a atual escassez de água, com campanhas educativas e fiscalização. Esta é uma campanha da qual todos devem tomar parte, como empresas, ONG’s, e igrejas evangélicas.

É neste quesito, no entanto, que temos um entrave e uma problemática difícil de ser resolvida, no sentido em que há uma barreira que impede que igrejas evangélicas tomem parte de discussões que ultrapassem seus limites denominacionais. Há uma tendência quase que universal de supervalorização do espiritual, dando pouco respaldo ao aspecto social de seus membros e congregados. A temática meio ambiente ainda é um tabu no meio evangélico – com excessão, é claro, de algumas igrejas protestantes históricas, a exemplo da Igreja Metodista -, que precisa ser mais bem trabalhado e discutido pela nova geração de crentes que tem maior acesso ao conhecimento, à cultura e à informação. Os entraves, atualmente, estão nas igrejas pentecostais, que pouca atenção tem dado a questões que não o sejam o pentecostalismo e a busca pela espiritualidade.

Neste sentido, torna-se difícil a participação destes em temas que estão em voga na sociedade, nos meios de comunicação, nas organizações de defesa dos recursos naturais. É um erro e um atraso que necessita ser revisto o mais breve possível. A igreja evangélica não deve se manter neutra em temas que a envolvem diretamente, uma vez que ela é constituída por membros, por fieis cuja sobrevivência não depende apenas da espiritualidade, mas também de recursos básicos e naturais comuns a todos os homens. A oração é parte da vivência denominacional dos evangélicos, mas não deve ser o único caminho para a melhoria de suas condições sociais, de relacionamento com o mundo. Cabe, no entanto, aos líderes desenvolver uma nova compreensão da conjuntura social, criar mecanismos de participação na defesa da água e de outros recursos igualmente importantes.

Por outro lado, devemos reconhecer que há um vácuo de diálogo no meio evangélico. Movimentos como os Evangélicos pela Justiça, o Instituto Sou da Paz, e a Rocha Brasil apresentam-se como alternativas de estabelecimento de pontes, de diálogo horizontal, mas não representam a totalidade da igreja evangélica brasileira que, segundo o Censo 2010 do IBGE, é composta por mais de 42 milhões de fieis. Não há uma instituição representativa, denominacional, de relações institucionais, semelhante à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Este vácuo de representação é um dos grandes erros da igreja evangélica brasileira, uma vez que tira parte de seu prestígio enquanto movimento de grande envergadura nacional. Ela deve, portanto, assumir uma postura mais firme, ser um canal de diálogo com a sociedade, dar sua contribuição à melhoria das condições sociais e ambientais. Este diálogo, no entanto, não deve ser impositivo, intromissivo, e sim horizonta.
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*é jornalista, pesquisador da religiosidade brasileira e das relações entre religião e sociedade, autor de dois livros (dentre os quais a Enciclopédia Temática de Religião), colunista do Gnotícias e do Núcleo Apologético de Pesquisas e Ensino Cristão (NAPEC).


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