O aspecto emblemático da eleição de Ereni Miranda, a nova presidente mundial da IPDA

por Johnny Bernardo*

Apesar de não confirmado o prognóstico inicial – da possibilidade da eleição do filho mais velho de David Miranda -, a escolha de Ereni Miranda como a segunda presidente mundial da Igreja Pentecostal Deus é Amor possui um forte valor emblemático. Primeiro, porque é a primeira mulher a assumir a presidência de uma igreja pentecostal brasileira, rompendo com uma tradição de 105 anos de predominância masculina. Seja nas igrejas pentecostais, como nas neopentecostais – com excessão da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, que tem no casal Estevam e Sônia Hernandes seu sustentáculo – a presença de homens na presidência de igrejas é um fato histórico indiscutível. Segundo, que a predominância da família Miranda na direção mundial da IPDA continua intacta.

De conselheira mundial, Ereni Miranda torna-se a primeira presidente da IPDA. A informação – divulgada por meio de uma breve nota em uma página secundária da Igreja no Facebook, na tarde de hoje (27) – deixa em aberto a forma pela a qual Ereni foi conduzida a ocupar o cargo deixado vago com a morte de seu marido. Até o fechamento desta matéria – às 23h00 – o portal da IPDA não havia divulgado qualquer informação sobre o procedimento de escolha de Ereni Miranda. Sua filha, Débora Miranda, confirma a escolha também com uma breve nota em sua página. “Minha querida mamãe Ereni Miranda, a nova presidente da nossa IPDA. Seja bem-vinda, mulher guerreira, virtuosa e exemplo de coragem! O povo e a diretoria estão contigo e a sua família esta ao seu lado para lhe apoiar! […]”. Diferente da nota postada hoje, a declaração entre aspas foi publicada ontem, às 22h. A eleição ocorre, portanto, dois dias após o enterro do Missionário David Martins Miranda.

Como instituição com registro em cartório, a IPDA é legalmente condicionada a realizar eleições para a composição de sua diretoria. Emílio Zambom de Mendonça, em Igreja Pentecostal “Deus é Amor”: origens, características e expansão, faz menção à ata do dia 26 de julho de 1999, na qual há o registro da recondução de David Miranda como presidente, seguido por seu vice-presidente. Segundo Mendonça, “[…] seu sistema de governo, até antes da atual lei, era de tipo ‘vertical-autoritário’, ‘episcopal’, apesar de que a eleição da diretoria se dava com a indicação de uma chapa ‘oficial’ constando a nova diretoria por indicação do Diretor Presidente, Missionário David Martins de Miranda. A aprovação era por aclamação e, claro, quem concordava, ficava sentado e os que discordassem se punham de pé. Durante os 11 anos em que nós participamos dessas assembleias, jamais vimos um voto discordante […]” (p.52). O autoritarismo é uma característica da IPDA.

Em sua tese de pós-graduação em Ciências da Religião, Mendonça elenca outro fato importante com relação ao corpo de obreiros da Igreja Deus é Amor. Segundo ele, é vedado ao sexo feminino a consagração ao pastorado. “Não há diaconisas nem presbíteras e muito menos pastoras” (O sistema de governo da IPDA, p. 54). Apesar de não consagrar mulheres ao ministério pastoral, a IPDA “[…] reconhece, porém, a função de ‘evangelistas’ tanto para homens como para mulheres […]”. Como explicar, porém, a subita e inesperada escolha de Ireni como presidente mundial da Igreja Deus é Amor? De que forma ocorreu tal escolha, e de que maneira os membros participaram do processo? A forma autoritária como as assembleias eram conduzidas por David Martins Miranda, e a ausência de manifestações contrárias à chapa única são questões que merecem uma maior atenção.

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*é jornalista, pesquisador da religiosidade brasileira e das relações entre religião e sociedade, autor de dois livros (dentre os quais a Enciclopédia Temática de Religião), colunista do Gnotícias e do Núcleo Apologético de Pesquisas e Ensino Cristão (NAPEC).

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